Origem das Letras

Física Quântica

Música de Letícia Coura

“Tentei morar um tempo na praia, construí uma casa.  Achei que ia abandonar a cidade grande, que ia virar uma escritora, uma ermitã.  A praia é linda, a casa ficou gostosa, apesar de nunca terminada.  Num dia de sol, deitada na areia, me veio essa letra na cabeça.  Tinha acabado de ler um livro sobre física quântica, viagens no tempo, átomos. Depois acabei voltando pra cidade grande. E até hoje não virei escritora.” (Letícia Coura)

Foto Neander Heringer


Marginal

Melodia de Adriana Capparelli e Letícia Coura, harmonia de Adriana Capparelli e letra de Letícia Coura

“Sempre vou me lembrar da Elaine – Elaine César, videasta – quando canto essa música.  Ficava imaginando um clip dirigido por ela – e ela tinha topado dirigir! – em que casais inusitados apareceriam bem felizes saindo de férias pela Marginal (Tietê). Alguém e seu cachorro, seu gato, papagaio, um pai e filho, amigos, desconhecidos, alguém e seu computador, saindo a pé, de carro, caminhão, bicicleta, ônibus farofeiro. E o casal inspirador de tudo isso era ela e o Théo, filho dela, lindo, que sempre chegava sorrindo e alegrava todo mundo. Demoramos muito pra finalizar o CD.  Nesse meio tempo ela perdeu a guarda do filho pra um ex-marido ciumento e desequilibrado, lutou pra recuperá-la e recuperou, lutou contra um câncer, venceu durante um bom tempo, teve outro filho lindo, Rudá, e acabou nos deixando em janeiro de 2012.  Mas ela e o Théo sempre vão aparecer sorrindo juntos em algum lugar quando essa música tocar.” (Letícia Coura)

Foto Neander Heringer.


Molambo

Música de Jayme Florence e Augusto Mesquita

“Molambo faz parte do meu repertório pessoal há muito tempo. Só o título já instiga.  Sempre adorei e me inspirei muito ouvindo samba-canção, boleros, tangos, e muita música brasileira de todos os tempos. Quando fiz a direção musical do espetáculo ´Retábulo da Avareza, Luxúria e Morte´ com os Satyros, cantava essa música só com meu cavaquinho, no fim de uma cena linda com uma atriz no papel do marido bêbado e um boneco, sua esposa.  Adriana sugeriu que colocássemos essa canção no disco, e imaginou Arthur Nestrovski no violão.” (Letícia Coura)


Será que Você Perdeu

Música de Letícia Coura

“Numa das muitas vezes que a mesma pessoa terminou tudo comigo.  Até que chega uma hora que quebra de vez.” (Letícia Coura)


Nick Name

Música de Letícia Coura

“No início da internet, antes de existir orkut, quando os primeiros locais de conversas começaram a aparecer (lá pelos anos 1999, 2000), um amigo começou a arrumar umas namoradas virtuais. A mulher dele viajava e ele ficava na internet, namorando, a mulher voltava e ele continuava, até que a coisa complicou, uma menina foi parar na casa dele… Enfim!  E no telefone uma vez ele ficou me convencendo a entrar, que era ótimo, e aí me deu uma vontade danada de entrar. Mas eu queria mesmo era descobrir ele lá dentro, ver como ele fazia, que nome ele inventava, do que eles falavam, como as relações aconteciam.  Cheguei a tentar algumas vezes, mas na verdade era muito papo furado, eu não tive muita paciência de “procurar” alguém.  Mas fiquei com aquela sensação.  E escrevi essa letra, que na verdade ainda tem uma segunda parte enorme. E naquele ano, 2007, depois de voltar pela nossa turnê de Os Sertões pelo Nordeste, que teve seu gran finale em Canudos, me deu muita vontade de cantar aquela letra. Canudos, onde nessa época ainda não chegava sinal de celular, já tinha suas primeiras lan houses, uma só com quatro computadores e outra já investindo e crescendo. Fizemos amigos que nos encontraram depois pelo orkut. Acho que por isso a música tem essa cara e ritmo um pouco nordestinos, e é ao mesmo tempo um pouco nervosa, ansiosa.  Pra mim essa é a sensação da internet.” (Letícia Coura)

Foto de Neander Heringer.


Faixa de Gaza

Música e harmonia de Adriana Capparelli, letra de Adriana Capparelli e Rodrigo Trindade

“A possibilidade de perder quem você ama. Angústia enlouquecedora. Só fazendo canção pro peito não estourar.  Música esquisofrênica, a docilidade quebrada por rock heavy. A frase – me diz em forma de silêncio o que tem feito comigo dentro de você – é do Rodrigo, que cuidava do meu cabelo na época, um menino lindo que me cantava. Em vez de ter sofrido tanto com a ausência desse amor infiel, devia ter cedido ao sorriso lindo do Rodrigo…” (Adriana Capparelli)

Foto Neander Heringer.


Deserto

Música e harmonia de Adriana Capparelli, letra de Letícia Coura.

“Fiz essa melodia antes, solta, e Letícia depois de um tempo pôs a letra. O nome veio mais tarde ainda, quando percebemos onde a canção estava. Era um deserto como o do filme “O sol que nos protege”, do Bernardo Bertolucci. Deserto que aparece também no romance preferido de Letícia, O Quarteto de Alexa. O som no final da canção é do Saara, captado por Letícia quando foi para o norte da Africa com o Revista do Samba.” (Adriana Capparelli)

“Quando fui pro Marrocos em 2007 sabia que ia conhecer o Saara. Tocamos (o grupo Revista do Samba) olhando pra ele!  Foi dessas experiências que me faz agradecer aos deuses sempre e de novo. Levei o MD, gravei o som do deserto.  Achei que ia acabar de fazer a letra lá.  Mas o deserto não pede muitas palavras. O som do deserto é o vento.” (Letícia Coura)

Nana Carneiro da Cunha em foto de Neander Heringer.


Triste Quente

Música de Adriana Capparelli e letra de Vadim Nikitin

“Essa letra é do Vadim, nós namorávamos essa época. Musiquei, mas nem compunha ainda. Eu fiquei fissurada num filme, assistia sem parar – ´Quando a noite cai´. Vadim fez a letra baseado na minha reação ao filme e ao filme diretamente. A melodia, harmonia, é o que me causava o filme…” (Adriana Capparelli)

“Conheci Adriana.  Ela me cantou algumas músicas.  Fui pra praia no dia seguinte – Guaecá – e essa música estranha não me saía da cabeça. Só me lembrava de algumas partes, que ficavam cantando dentro de mim. Liguei da praia umas vinte vezes pra ela e ninguém atendia.  Sabia que ela poderia estar em alguma praia não muito longe dali.  Na época não tinha celular, ligava pra casa dela do orelhão.  Fomos nos encontrar de novo já em São Paulo, dias depois.” (Letícia Coura)

Foto Neander Heringer.


O Sol de Maiakovski

Música de Adriana Capparelli e poema de Beatriz Azevedo

“ ´Um anjo me carrega e de cima eu vejo a terra´. Sempre me liguei em anjos, já vi um. Adoro cantar esse verso. Esse poema da Beatriz é arrebatador.” (Adriana Capparelli)

Foto de Neander Heringer.


Sem Tradução

Harmonia de João Luís Nogueira, letra de Letícia Coura e melodia de Júlia Ribas e João Luís Nogueira.

Adriana e eu fomos gravar um programa de TV em Belo Horizonte, já com as canções desse nosso projeto Aos Contrários.  Era um programa gravado em Nova Lima. Ficamos horas esperando a nossa vez no camarim e lá conhecemos a cantora e compositora Júlia Ribas, linda, um mulherão, e muito engraçada, filha do também cantor e compositor Marku Ribas. Ela e o violonista que a acompanharia, João Luís Nogueira, ficaram então no camarim tocando e cantando, esperando a vez de gravar. Até que eles tocaram uma música muito linda, sem letra, e Júlia ficava cantando umas palavras inventadas, com sons da língua francesa. Perguntei que canção era aquela, e ela me disse que era uma parceria deles, sem letra, e que ela cantava com aqueles sons porque achava que combinava. Eu me ofereci pra fazer uma letra, já que gosto e falo francês, e eles adoraram a ideia de misturar português com francês. Poderia ter ficado só na conversa do camarim, mas eles gravaram a música, ou eu mesma gravei lá, não me lembro, o João me passou a harmonia e eu depois de um bom tempo apareci com a letra, que eles aprovaram felizes. Ficamos de fazer outras parcerias, mas até agora nada. Acho que vamos ter que nos encontrar de novo em algum camarim. (Letícia Coura)


Jeanne Moreau

Harmonia de Adriana Capparelli, melodia de Adriana Capparelli e Letícia Coura, e letra de José Celso Martinez Corrêa.

“Essa canção foi feita para O Homem II, segundo espetáculo de Os Sertões, do Oficina. Zé Celso viu uma entrevista da Jeanne Moreau na televisão em que ela dizia esse texto e colocou na peça em um momento de questionamento do Antônio Conselheiro. Ele perguntava para as estrelas que sinais elas dão e a estrela Jeanne Moreau que respondia a sua pergunta era Letícia. No espetáculo era cantada só em francês. Foi inspirada em Debussy – Claire de Lune – e até hoje acho que alguém me soprou essa música/ harmonia, porque ainda me surpreendo em como é bonita. O giro que cantamos, o cânone, e que dá sempre certo, foi descoberto depois, outra “magia”. Abre o segundo CD porque é a que mais deixa explícito o nome Aos Contrários. É a própria roda gigante da capa. Nada dura pra sempre, nada sempre fica triste ou alegre, tudo sempre gira e muda o tempo todo. A impermanência budista, claro/escuro, dia/noite/, yin/yang… Os contrários! Nada sempre fica lá em cima, uma hora vai descer pra de novo subir. O arranjo de cordas, deslumbrante, do outro mundo, é do produtor dos CDs, Fabio Tagliaferri.” (Adriana Capparelli)

“Li essa letra numa das inúmeras leituras que fizemos da peça O Homem II lá do Oficina, antes mesmo do texto estar pronto. Já era a terceira peça d eOs Sertões, e a minha impressão é que não teríamos mais ideias pra compor músicas. Já tínhamos composto muitas pra as peças A Terra e O Homem I. Tinha sido uma delícia, mas deu um cansaço, uma sensação de vazio, de que não sairia fácil melodias de dentro de nós lá no teatro. Foi quando fizemos algumas leituras da peça (o que já estava escrito, ou roteirizado), e a mapeamos junto com o Zé, com uma idéia do que ele tinha imaginado pra cena, e que tipo de música teria que ser. Pelos estilos fomos imaginando quem poderia compor aquelas canções – colocar melodia e harmonia naquelas letras. E assim iam entrando Arnaldo Antunes, Zé Miguel Wisnik, Péricles Cavalcanti, Sérgio Ricardo e até Adriana Calcanhotto, Caetano Veloso, Marina. Dos compositores que listamos a maioria fez as canções pedidas. O Homem II é uma peça com essa característica, cheia de compositores diferentes e muitos que fazem parte da história musical de cada um. Quando eu vi escrito Jeanne Moreau, e aquela letra em francês, falei na hora que eu queria compor aquela. Até que um dia, depois de algum ensaio, eu e Adriana ficamos ouvindo Debussy pra nos inspirar e compusemos a melodia e harmonia (a harmonia é da Adriana) pra Jeanne Moreau. Eu cantava essa música na peça. Cantei muitas vezes olhando pelo janelão do teatro, vendo os antigos prédios e casas do terreno vizinho, todos do Sílvio Santos, sendo destruídos um a um. Teve o dia em que demoliram a Sinagoga, primeira sinagoga de SP, e eu cantava essa letra vestida de Jeanne Moreau com um vestido que foi da Lina Bo Bardi e um colar de pérolas falsas. Depois cantei isso olhando o mar do Recife, o armazém de Salvador, o campo de futebol de Canudos. Cada lugar desses deu mais sentido pra música. Até que cantei em Monte Santo, numa subida que fizemos com o pessoal da peça, cena que está no filme da Ava Rocha, Ardor. Quis que a Adriana cantasse essa música comigo na peça, ela em português e eu em francês, como fazemos agora, mas o Zé não quis. Então guardamos pra um momento como agora.” (Letícia Coura)

Foto Neander Heringer.


Mulher de Pescador

Música de Letícia Coura.

“Comecei a fazer essa música lá no Bonete, uma praia do lado do mar aberto da Ilhabela.  Fui pra lá de canoa, levei o violão, e fiquei esperando um grande amor que ia chegar dali uns dias.  E ficava ali na praia, com as mulheres e as crianças e os pescadores também, olhando o mar. Eles iam dizendo se ia chover, estudando as nuvens.  Volta e meia virava uma canoa ali. Toda família tem alguém que não voltou do mar.” (Letícia Coura)

Foto Neander Heringer.


Matarazo

Música de Rafael Camargo.

“Rafael é um compositor de Curitiba, diretor de teatro, não canta profissionalmente, apesar de ser apaixonante – ele e suas canções. Um amigo meu cantava essa música e eu adorava. Matarazo é o nome do bairro de uma cidade do litoral do Paraná, onde os pais do Rafael se conheceram e namoravam. A canção evidencia o clima romântico dos discos. A ideia de fazermos um arranjo de vozes foi minha, então chamar um dos melhores cantores da cidade, Marcelo Preto, foi certeiro. E chamar Chiris pra cantar foi delicado e muito especial. Ela era mulher do amigo que me apresentou a canção, é amiga de muitos anos do Rafael, é adorada por mim e Letícia… Enfim, tudo a ver.” (Adriana Capparelli)

Foto de Neander Heringer.


A Estrela

Letra e melodia de Adriana Capparelli e Letícia Coura. Harmonia de Adriana Capparelli.

“Fui buscar Letícia no aeroporto, ela voltando de uma de suas viagens pelo mundo com o Revista do Samba.  Estava com um lenço no pescoço, toda estrela! Uma estrela correndo atrasada por algum aeroporto enorme, como o de Amsterdã, que faz várias conexões. O som iniciando a canção é de lá. A boca de cena é a pista do Teatro Oficina onde a estrela da Letícia brilha há muitos anos.” (Adriana Capparelli)

“Adriana começou a fazer essa música, inspirada no tal lenço que ganhei da Chiris (cantora que gravou conosco Matarazo e Carente) e que usava sempre pra viajar.  Os aviões têm sempre um ventinho desagradável e descobri esse lenço, écharpe, antídoto pra isso, e que agora uso sempre. A estrela seria eu, mas vejo mais uma estrela do céu mesmo, do céu que a gente vê em cada lugar e que nos diz onde estamos na terra. Isso de viajar muito traz uma outra consciência da realidade, dos lugares, dos valores. Tudo é relativo e absoluto ao mesmo tempo. E esse negócio de estrela no aeroporto é mais uma imagem.  A impressão que tenho das viagens que fiz pra cantar – adoro viajar! –, principalmente as que tiveram cara de tourné, é que funciona assim: viaja, viaja, dorme pouco, dorme sentada no avião, passa por lugares que a gente nem vê direito (e não sabe onde está), conhece muita gente que nunca mais vai encontrar e, entre uma viagem e outra, vive uma espera de muitas horas no aeroporto, pega táxi apertado, passa por estações de metrô e trem… A gente vai lá e canta um pouquinho.” (Letícia Coura)

Foto de Neander Heringer.


Estrela Escura

Máusica de Letícia Coura.

“Sempre quis fazer uma música pro meu irmão, Vicente. Quando eu tinha meus 13, 14 anos, e ele 5 anos mais velho, costumávamos passar horas cantando juntos, fazendo vozes, inventando histórias futuras, ele me desenhando (desenhava muito bem, ganhou alguns prêmios de artes plásticas), fazendo desfiles, tomando café com leite de madrugada, lendo peças de teatro, dançando. E eu tinha uma personagem que aparecia de vez em quando, a Tuddy Dark Star, uma entrevistadora que ficava entrevistando quem aparecesse no seu “programa de TV”. Eu o entrevistei muitas vezes, e nessa onda íamos imaginando tudo que faríamos juntos e separados pela vida, contando nossas alegrias e dissabores, descobertas, vontades. Ele foi meu grande incentivador em qualquer arte que tentei fazer nessa época. Ele mesmo chegou a encenar pequenas peças, fazer instalações misturando artes plásticas, música e teatro, até que ele se mudou pro Rio. E lá se matou. Isso há muitos anos atrás. Tenho esse buraco. Uma saudade e vontade dele aqui agora. Fiz essa música lá em Guaecá, quando achei que ia virar escritora e morar na praia.” (Letícia Coura).


Círculo Polar

Música de Adriana Capparelli.

“Me apaixonei loucamente por uma pessoa completamente fria.Fiz de tudo para esquentá-la, quebrar o gelo, mas o medo dela de me amar foi maior, sempre. Eu ficava como o sol do círculo polar, nunca alcançando o horizonte, nunca deitando… A vontade de me congelar custou a passar.” (Adriana Capparelli)

Foto de Neander Heringer


Bam Bam Bam

Música de Letícia Coura.

Tradução:

meu querido
você me fechou a cara
você me deixou sozinha
nessa merda de lugar
meu querido
ele foi embora de mim
agora eu fico zanzando por aqui
nessa merda de lugar

seu rosto era enorme
e suas mãos pequenas
ele tinha um gosto de morte
e um ar bem ingênuo
ele tinha um olho muito forte
pena que só tinha um
e tudo acabou
três tiros
bam bam bam !!!

“Compus essa música para a peça Ópera Urbana Zucco, dirigida pela Beatriz Azevedo. Era uma cena de cabaré e eu cantava essa música depois de descer aquela escada do teatro do SESC Pompéia, e os homens faziam uma coreografia de movimentos cotidianos. Fiz em francês porque na época do trabalho estava traduzindo também outras peças e entrevistas do dramaturgo francês Bernard-Marie Koltès (fizemos uma pesquisa bem grande) e o francês fluiu. Foi uma forma de chegar mais perto da origem do texto, sei lá. Era pra ter entrado no meu primeiro CD, Bam Bam Bam, que acabou levando o nome da música, mas ela mesma foi limada. Na época não consegui achar uma cara interessante pra ela, fora do contexto da peça. Com o tempo fui gostando sempre de cantar, a Adriana fazendo aquele improviso no meio, e acabei achando que ela tinha uma cara de Henri Salvador. Troquei a levada mais jazz, como era antes, pra essa levada meio bossa nova gringa. Depois, ainda usei a mesma harmonia pra uma cena d’O Banquete de Platão, espetáculo que fiz com o Teatro Oficina, direção de Zé Celso. A cena é do Agatão, personagem interpretado divinamente por Marcelo Drummond. Não consigo mais ouvir essa harmonia sem ouvir a voz grave do Marcelo Agatão.” (Letícia Coura)


Ylang Ylang

Segunda canção do CD Ao Contrário, com música de Adriana Capparelli e letra de Letícia Coura.

“Esse foi o primeiro bilhete que ganhei da Letícia. Achei tão lindo que resolvi musicar. Assim nasceram as primeiras canções,  ela escrevia mensagens tão lindas que eu precisava fazer alguma coisa com “aquilo”. Assim também nasceu Asma, que gravei no CD Bem mais Perto. Ylang Ylang, o nome, foi descoberto pela nossa amiga poeta Cathérine, na praia. Estávamos em Guaecá onde Letícia tinha uma casa, era verão e veio o cheiro na noite quente: ylang ylang! O grito quando canto é porque quando Letícia me levou na casa de Cathérine pela primeira vez, quando cantei a pedidos, ela começou a gritar e eu não entendia se gostava ou sofria. Reproduzo o tipo de grito, aqueles que vêm de dentro. Tuco Marcondes arrasou com seu dobro, ideia genial do produtor dos CDs, Fabio Tagliaferri. Eu e meu violãozinho em duo com um guitarrista incrível… Me senti!” (Adriana Capparelli)

“Nossa primeira parceria. Deixei esse bilhete pra Adriana.  Nessa época íamos muito pra Guaecá. É um lugar delicioso pra cantar e lá tinha uns jasmins (daqueles grandes) plantados na entrada da casa, lá embaixo, que nas noites quentes soltava um perfume… Cathérine, uma amiga francesa que estava lá conosco, sentiu o perfume e disse que era de uma essência que ela conhecia muito, de quando ainda morava na França, e ficou tentando lembrar o nome.  Alguns dias depois, em SP, ela ligou e disse o nome: ylang ylang.  E ficou sendo o nome da canção – e durante um bom tempo, do nosso projeto desse trabalho juntas.” (Letícia Coura)


Ao Contrário

“Ao Contrário” é a canção que abre o CD Ao Contrário. Tem música e letra de Adriana Capparelli e Letícia Coura, e harmonia de Adriana Capparelli.

“Quando cheguei a primeira vez na Europa, em Berlim, foi um assombro! Tinha  uma sensação o tempo todo de vulnerabilidade. Estávamos andando de madrugada, eu e Letícia, e eu soltei um grito quando vi a lua: É ao contrário!!! Tinha saído do Brasil com uma lua crescente em forma de C e lá encontrei uma lua crescendo em forma de D. A letra dessa canção foi feita caminhando pelo Tiergarten, o parque central que circunda o ‘anjo de Berlim’. É cheio de alamedas por onde anda-se de bicicleta e pode-se encontrar dois homens namorando à luz do dia. Já tive alguns insights místicos dentro dele; é um portal pra mim. O som na música é do metrô de Berlim.”. (Adriana Capparelli)

“Depois de momentos difíceis em Berlim, Adriana estranhando muito a cidade, as pessoas, e eu lá já há algum tempo, mais familiarizada e mais na vida de lá, de viajante, compramos uma cerveja quente e fomos andar no parque: Tiergarten, parque imenso e lindo, em volta do anjo. Além de todas as estranhezas, Adriana quase achou que estava em Marte quando viu a Lua, ao contrário. Parecia que ela tinha perdido o senso de gravidade, que não tinha mais certeza se o chão existia mesmo, e se estava realmente debaixo dos pés.  Lembrei da minha sensação quando, pela primeira vez, percebi a lua esquisita, numa viagem anterior. Senti tudo de novo ali com ela, e nós sozinhas ali naquele parque, sem nossos papéis habituais do dia-a-dia, as referências de sempre, em contato com o que talvez fôssemos realmente. Ao menos naquele momento.  Adriana começou então a propor a letra, a música, e fui cantando com ela, e assim conseguimos nos comunicar. Estar ali era o que existia”. (Letícia Coura)